O avanço da inteligência artificial está alterando a forma como pessoas, empresas e sistemas interagem com serviços financeiros. Agentes começam a executar tarefas em nome dos usuários, fraudes ganham novas possibilidades de escala e os mecanismos tradicionais de autenticação precisam acompanhar operações cada vez mais automatizadas.
Essas mudanças estiveram entre os temas discutidos no Money20/20 USA 2026, realizado entre 18 e 21 de outubro, em Las Vegas. O evento reuniu representantes de diversas partes do mundo do ecossistema de pagamentos, instituições financeiras, empresas de tecnologia e fintechs para discutir os próximos movimentos do setor.
A MATH esteve por lá e acompanhou as discussões. A partir dessas conversas, cinco temas ajudam a compreender como a inteligência artificial está influenciando a infraestrutura, a segurança e a operação dos serviços financeiros.
Quais foram as principais tendências do Money20/20 2026?
Entre os temas abordados nos painéis analisados estão o avanço do comércio agêntico, a evolução da identidade digital, a prevenção a fraudes com IA, o uso de redes móveis como fontes de segurança e os novos desafios de compliance para plataformas financeiras.
A utilização de agentes de IA para pesquisar produtos, comparar ofertas e executar tarefas introduz uma nova dinâmica no comércio digital. Em vez de depender de uma sequência de interações conduzidas diretamente pelo consumidor, determinadas etapas podem ser realizadas por sistemas automatizados.
Durante o painel "Who Let the Bots Pay? The Missing Guardrails of Agentic-Commerce", sobre comércio agêntico, representantes de Okta, Experian, Skyfire e Fastly discutiram as implicações dessa mudança para a infraestrutura de pagamentos.
Um dos pontos centrais foi a necessidade de distinguir agentes legítimos de automações maliciosas. Sistemas de segurança tradicionalmente projetados para identificar e bloquear bots passam a encontrar agentes autorizados pelos próprios clientes.
Esse cenário traz uma questão operacional. Uma instituição pode reconhecer a identidade de uma pessoa e ainda precisar comprovar se determinado agente recebeu autorização para executar uma transação em seu nome.
O conceito de Know Your Agent (KYA) apareceu nesse contexto como uma proposta para verificar a identidade e a origem dos agentes. A discussão também envolveu mecanismos capazes de registrar a intenção do usuário, os limites de gastos e as condições de execução.
Para instituições financeiras e empresas de comércio digital, a evolução pode afetar diferentes etapas da jornada: identificação, autorização, pagamento, registro da operação e resolução de disputas.
A capacidade de executar uma compra automaticamente amplia as possibilidades de conveniência. Ao mesmo tempo, torna necessário estabelecer controles que acompanhem a decisão desde a delegação até a confirmação da transação.
Aprofunde neste tema, com o artigo: Risco de agentes de IA: o que muda entre recomendar, atualizar e decidir.
Os mecanismos tradicionais de verificação de identidade frequentemente utilizam dados pessoais que podem ter sido expostos em vazamentos. Informações como nome, endereço e documentos continuam sendo importantes para diferentes processos, mas sua disponibilidade indevida compromete o valor de utilizá-las isoladamente como evidência de identidade.
Essa foi uma das questões levantadas por Christopher Bramwell, Chief Privacy Officer do Estado de Utah, no painel "Digital Identity Is Broken: States Have a Solution", focado em identidade digital e governança.
Bramwell apresentou a iniciativa State-Endorsed Digital Identity (SETI), que busca estruturar regras de governança para credenciais digitais, com atenção à privacidade, ao controle individual e à interoperabilidade.
A proposta discutida no espaço considera o uso de credenciais verificáveis e mecanismos de autorização que reduzam a dependência de dados pessoais estáticos.
Esse debate se conecta ao desenvolvimento de padrões internacionais. A especificação Verifiable Credentials Data Model v2.0, publicada pelo W3C, estabelece um modelo para representar credenciais digitais verificáveis por máquinas, com mecanismos de segurança criptográfica.
A relação entre identidade digital e autonomia dos agentes também aparece na análise de Marcel Ghiraldini, CSO da MATH, publicada na The Shift. Na coluna, o executivo conecta os debates sobre identidade no Money20/20 à presença de agentes de IA no próprio ambiente do evento, ampliando a discussão sobre os mecanismos de confiança necessários para operações automatizadas.
A implicação para o setor financeiro envolve mais do que modernizar o cadastro de clientes.
As instituições precisam avaliar como uma identidade é comprovada, quais informações são realmente necessárias em cada operação, como uma autorização pode ser revogada e quais evidências ficam disponíveis para auditoria.
Com a participação crescente de agentes de IA nas jornadas digitais, a identidade também precisa sustentar relações de delegação. O sistema deve conseguir diferenciar a identidade do cliente, a identidade do agente e a autorização concedida para uma ação específica.
A inteligência artificial generativa introduziu novas possibilidades para produzir imagens, documentos, vídeos e áudios sintéticos. No ambiente financeiro, essas capacidades podem ser exploradas em tentativas de falsificação de identidade, abertura de contas e contestação de transações.
Em painel "Attack of the Clones: Managing Identity in the Deepfake Era", com representantes da Block, PlayStation e Complex, os participantes destacaram que os mecanismos de fraude variam conforme a etapa do relacionamento com o cliente.
Durante a abertura de uma conta, uma identidade sintética pode combinar informações reais e fabricadas para tentar superar os mecanismos de verificação.
Em uma operação já estabelecida, documentos ou imagens manipulados por IA podem ser apresentados como evidência em pedidos de reembolso, disputas comerciais e solicitações de suporte.
Essas diferenças são importantes porque cada situação demanda sinais e controles específicos. A validação inicial da identidade não elimina a necessidade de verificar ações realizadas posteriormente.
Os participantes também discutiram a importância de analisar a integridade das informações diretamente no dispositivo utilizado pelo cliente, além de compartilhar sinais de risco entre as organizações envolvidas nas transações.
Outro aspecto é a velocidade dos ataques. Quando tentativas fraudulentas são produzidas e distribuídas automaticamente, processos de revisão que dependem de análises demoradas podem perder efetividade.
Para as empresas, isso amplia a necessidade de integrar dados de diferentes pontos da jornada e utilizar sistemas capazes de identificar comportamentos suspeitos durante a operação.
A prevenção a fraudes precisa considerar a origem dos dados, o contexto da transação e a velocidade de resposta, combinando inteligência artificial, controles técnicos e análise de risco.
Saiba mais em: IA em operações financeiras: como preparar agentes inteligentes para ambientes críticos.
A infraestrutura de telecomunicações também ganhou espaço nas discussões sobre proteção de serviços financeiros.
No painel com representantes da Ericsson, Aduna e Vonage, a utilização de informações provenientes das redes móveis foi apresentada como uma alternativa para complementar mecanismos de autenticação e prevenção a fraudes.
Dados relacionados à troca de SIM, à vinculação entre número e dispositivo e à situação de uma linha telefônica podem fornecer sinais adicionais para avaliar o risco de uma operação.
A integração desse tipo de informação depende de interfaces padronizadas entre operadoras e empresas que consomem os dados.
Nesse contexto, iniciativas como GSMA Open Gateway e CAMARA oferecem referências para o desenvolvimento de APIs de rede, incluindo recursos associados à verificação de números e à identificação de trocas de SIM.
Para bancos e fintechs, a oportunidade está em combinar sinais de telecomunicações com dados transacionais e informações de comportamento.
Essa abordagem pode apoiar modelos de autenticação adaptativa, nos quais o nível de verificação é ajustado conforme o risco identificado, respeitando as condições de acesso e privacidade aplicáveis aos dados utilizados.
O resultado esperado é uma jornada capaz de oferecer segurança adicional em operações sensíveis sem aplicar o mesmo nível de atrito a todas as interações.
A expansão de serviços financeiros para plataformas digitais também foi discutida no Money20/20.
Rob DeCampus, executivo de compliance do X, abordou os desafios enfrentados por empresas que passam a oferecer produtos financeiros a usuários inicialmente vinculados a outros tipos de serviço.
Uma plataforma social pode conhecer o comportamento de seus usuários, suas interações e seus interesses. Essas informações, entretanto, possuem características diferentes dos dados necessários para verificar identidade e avaliar riscos financeiros.
Por isso, DeCampus destacou a importância de manter processos específicos de KYC, controles de segurança, mecanismos de conciliação e governança regulatória.
O debate também mostrou como a automação introduz novos desafios para as áreas de compliance.
Agentes de IA podem realizar atividades legítimas em nome de clientes, enquanto sistemas fraudulentos podem apresentar características semelhantes. Bloqueios generalizados de automações podem afetar experiências autorizadas, e decisões automatizadas sem controles suficientes podem aumentar a exposição operacional.
A resposta discutida no painel envolve incorporar inteligência para identificar anomalias em tempo real e manter políticas compatíveis com o tipo de produto, o perfil de risco e os requisitos regulatórios de cada operação.
Esse cenário reforça a necessidade de aproximar as áreas de tecnologia, negócios, segurança e compliance desde a definição dos produtos financeiros.
Embora as discussões abordem tecnologias e situações distintas, existe uma relação entre elas.
O comércio agêntico amplia a capacidade de sistemas executarem ações em nome das pessoas. Essa autonomia aumenta a importância da identidade digital e dos mecanismos de autorização.
Ao mesmo tempo, fraudes produzidas com IA elevam a necessidade de validar a origem das informações e acompanhar comportamentos durante as operações. Dados de redes móveis e outras fontes podem contribuir para essa avaliação, enquanto o compliance estabelece as condições de responsabilidade e supervisão.
Para as instituições financeiras, essas mudanças trazem implicações diretas sobre a arquitetura tecnológica.
A integração de dados, os controles de acesso, a rastreabilidade das decisões e o monitoramento de processos automatizados precisam ser considerados em conjunto.
Na MATH, essa discussão se conecta ao desenvolvimento de soluções de IA integradas à operação das empresas. A aplicação de agentes envolve conectar modelos, dados, ferramentas e sistemas corporativos dentro de processos que mantenham regras explícitas, supervisão e registros de execução.
O avanço observado no Money20/20 aponta para uma infraestrutura financeira na qual a capacidade de automatizar transações deverá evoluir junto com os mecanismos de confiança necessários para sustentá-las.
As discussões do Money20/20 2026 mostram que o avanço da IA nos serviços financeiros alcança diferentes componentes da operação. Pagamentos, autenticação, prevenção a fraudes e compliance passam a lidar com sistemas capazes de interpretar informações e executar tarefas em diferentes contextos.
Para as instituições, o próximo passo é avaliar como essas capacidades se conectam à arquitetura existente, quais decisões podem ser delegadas e quais controles devem acompanhar cada nível de autonomia.
A MATH esteve em Las Vegas acompanhando essas discussões e conversando com executivos brasileiros sobre as mudanças nos serviços financeiros. Acompanhe a série MATH no Money20/20, no YouTube, para conferir os insights e as perspectivas dos profissionais que participaram do evento.
O que é o Money20/20?
O Money20/20 é um evento internacional do ecossistema financeiro que reúne instituições, fintechs, empresas de pagamentos e tecnologia para discutir tendências, produtos e mudanças no setor.
Quais foram os principais temas do Money20/20 2026?
Entre os temas abordados nos painéis analisados estão comércio agêntico, identidade digital, prevenção a fraudes com IA, segurança baseada em redes móveis e compliance financeiro.
O que é comércio agêntico?
Comércio agêntico é um modelo de interação comercial no qual agentes de inteligência artificial podem pesquisar, negociar e executar etapas de compra ou pagamento em nome de pessoas e empresas, conforme autorizações e limites definidos.
Como a inteligência artificial está mudando a prevenção a fraudes?
A IA amplia a capacidade de produzir identidades sintéticas e evidências manipuladas, além de permitir ataques automatizados. As estratégias de prevenção precisam incorporar controles específicos para cada etapa da jornada e mecanismos de detecção mais rápidos.
Qual é a relação entre identidade digital e agentes de IA?
A identidade digital ajuda a verificar quem participa de determinada interação. No caso dos agentes, também é necessário identificar o sistema automatizado, comprovar sua autorização e estabelecer os limites das ações delegadas.